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ARTIGO

Resenha – Pós-Corona, da crise à oportunidade

Conheci Scott Galloway recentemente, pulando de podcast em podcast em minhas caminhadas/corridas matinais. Trata-se de um professor de marketing e branding da Universidade de Nova York, que construiu sua carreira no mercado financeiro e em várias empresas que criou para cuidar do marketing e das marcas de seus clientes. Ao observar o mercado profissionalmente, criou um conjunto de análises sobre o mercado de tecnologia que publicou como livros, que por sua vez foram muito bem-sucedidos.

Dono de um humor ácido, de um poder de análise profundo e afiado, e de uma visão bastante eclética do mundo dos negócios e da tecnologia, Galloway tem encantado o mercado americano com suas previsões astutas e com sua capacidade de meter o dedo no nariz de CEOs bilionários, como no caso de Jack Dorsey, comandante do Twitter.

Galloway já havia entrado no radar de quem segue o mercado de tecnologia com seu livro “The Four” (As Quatro), em que analisa as quatro empresas gigantes da tecnologia: Amazon, Apple, Facebook e Google, apontando como essas empresas definem o que é o mundo à nossa volta, e como são detentoras de muito mais poder e influência do que a maioria dos países ou dos blocos transnacionais.

Não é de espantar que Galloway fosse querer expressar sua opinião sobre os vários assuntos que permeiam a atual pandemia de COVID-19, e como bom analista de negócios que é, observa a pandemia pela óptica da crise provocada e das oportunidades que devem surgir dessa crise.

Segundo o autor, o resultado mais duradouro a ser deixado como legado pela pandemia é a aceleração da adoção de tecnologia pelo planeta inteiro. O autor afirma — com dados e previsões — que nenhum setor da economia global deixará de ser afetado pela pandemia. Como e em que medida, é o assunto básico do livro.

Vejamos alguns dos principais pontos dessa nova obra de Galloway (que, infelizmente, ainda não tem tradução para o português).

 

Aceleração digital gera dispersão digital

Galloway aponta que o comércio eletrônico, que era 16% do varejo nos Estados Unidos no início de março de 2020 e que se expandia em pouco mais de 1% ao ano, chegaria a 27% do varejo americano apenas 8 semanas depois, um aumento de mais de 68%. A sugestão óbvia de Galloway: se sua organização vende um produto ou serviço, é fundamental que você tenha uma presença online. Essa rápida mudança para o digital, resultante do isolamento social (e, em alguns casos do lockdown), é uma tendência fundamental que está e continuará tendo um impacto enorme em todas as áreas da sociedade e dos negócios daqui para frente.

 

Os fortes ficam ainda mais fortes

O autor mostra que após uma queda brutal e esperada no início da pandemia logo no começo de 2020, as bolsas da Europa e dos EUA se recuperaram rapidamente e continuam a subir. Contudo ele avisa: a recuperação da crise foi desigual. A crise melhorou a avaliação de organizações com uma narrativa inovadora, enquanto as ações de hotéis, empresas de entretenimento, companhias aéreas, empresas de cruzeiros e resorts acumularam quedas entre 50% e 70%. O resultado é que empresas com boas reservas de caixa e ações valorizadas tenderão a se aproveitar das dificuldades de setores inteiros e comprar os ativos de concorrentes em dificuldades nos próximos meses e anos.

 

Uma crise social desigual

Galloway aponta um resultado doloroso da pandemia: ela aumenta o abismo social entre as classes mais abastadas e as menos abastadas. Profissionais de classe média podem trabalhar em regime de home office enquanto economizam dinheiro no deslocamento diário, viagens de negócio, roupas, alimentação e afins, podendo usar esse dinheiro extra para aumentar investimentos e patrimônio. Profisionais da saúde, servidores públicos e em cargos que exigem contato, como o pessoal do iFood, funcionários dos correios e funcionários de supermercados, passaram a trabalhar mais duro do que nunca na frente da crise. Galloway afirma que se formos honestos, temos que admitir que nós todos, como sociedade, temos uma dívida enorme com esse pessoal da linha de frente, que não teve escolha de fazer home office durante a crise da pandemia. Muitos dos demais, freelancers e pessoas que trabalham em áreas da economia que simplesmente minguaram, como cultura, entretenimento e viagens, passaram e continuam passando por momentos bastante difíceis.

 

Os quatro grandes: Amazon, Apple, Facebook e Google

 

Aqui Galloway revisita sua obra anterior. Por ter bastante conhecimento sobre tecnologia e por seguir essas quatro empresas em especial, e ele avalia seu papel durante a pandemia. Em sua análise, o setor a que os americanos chamam de big tech (grandes e poderosas empresas de tecnologia) se deu bem na crise. A Netflix não teve dificuldade nenhuma em substituir o cinema, aumentando bastante o valor de suas ações. O Shopify, empresa que facilita a criação de comércios eletrônicos, criou um alicerce para o varejo online (aqui no Brasil, vemos o MercadoLivre e a OLX oferecendo alternativas mais “caseiras” nesse sentido. O Zoom e outras ferramentas de videoconferência se tornaram a referência para reuniões online, substituindo muitas das viagens que antes fazíamos pelo país afora. Galloway fala, também, sobre suas quatro empresas preferidas: Amazon, Apple, Facebook e Google. Segundo o autor, essas empresas se solidificaram no mercado ao longo dos últimos anos, tornando-se “grandes demais para falhar” (expressão em inglês que se refere a empresas cuja pujança e os recursos financeiros — sem falar no poder de influência política — as torna impermeáveis às crises), dominando e definindo os mercados em que atuam. Aqui o autor faz uma sugestão inusitada e audaciosa: uma quebra dessas empresas em empresas menores alimentaria a inovação e todo o setor (e principalmente as empresas resultantes) seria beneficiado.

 

O que vale na organização não é sua “mirabolância”

 

Aqui Galloway começa por denunciar organizações financiadas por venture capital construídas sobre uma proposta duvidosa e sobre a premissa de “fingir até que se torne verdade”. Ele relata um problema bem óbvio que já está ocorrendo no mercado americano: usar capital para comprar participação de mercado não é um modelo de negócio sustentável e os exemplos mostram que esse mecanismo falhou miseravelmente durante a pandemia. O autor cita o exemplo da empresa Casper, fabricante online de colchões que decidiu arcar com um prejuízo de 349 dólares em cada venda, numa tentativa tresloucada de ganhar mercado. Além da Casper, existem 175 fabricantes de colchões fazendo vendas online desse tio de mercadoria. A empresa viu seu valor flutuar (em fevereiro de 2020) em torno de 1,1 bilhão de dólares, (um valor equivalente à sua avaliação antes de lançar ações no mercado), mas imediatamente perdeu 30% de seu valor logo na primeira semana na bolsa de Nova York. Ou seja: o sonho de querer comprar mercado e depois recuperar em vendas rentáveis é só isso: um sonho.

 

O modelo de ensino superior americano não é viável

 

O setor de educação será modificado para sempre pela COVID-19. O autor aponta que nos EUA o preço do ensino superior foi inflado além de qualquer medida razoável, subindo muito mais que a inflação nas últimas décadas. Segundo Galloway, a instituição de ensino superior como carimbo que dá status a quem tem diploma está se esvaindo faz tempo, e a pá de cal é a pandemia. Galloway sugere que as marcas universitárias mais fortes prosperarão aumentando seu alcance via Internet, enquanto outras fracassarão. Ele também sugere haverá produndas mudanças no seor de educação profissionalizante, como substituta dos diplomas universitários. Nesse sentido, mesmo antes da pandemia já era possível enxergar mudanças importantes no cenário do ensino: em 2018 Apple, IBM, Microsoft e várias outras empresas de renome deixaram de exigir diploma universitário para profissionais que atuam como programadores. Essa tendência, segundo o autor, tende a se ampliar.

 

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“Bacana,” você pode dizer, “mas isso é nos EUA. E nós aqui?”

A pergunta é pertinente, claro. Ocorre que muitas dessas tendências também se verificam no Brasil: a crise é mais pesada para as classes menos abastadas aqui, bem como lá; o comércio digital se expande, as viagens minguaram, e por aí vai. Claro que há peculiaridades econômicas e sociais que distinguem (e muito!) os dois países, mas há muita semelhança, também.

Galloway aponta, por exemplo, para o aumente do valor das empresas de decoração e remodelagem domiciliar, e não é difícil perceber que muita gente aqui no brasil está convertendo aquele quarto de hóspedes, que antes só juntava poeira, em escritório. Lá vai uma mexidinha na alvenaria, uma troca de piso, a substituição da cama por um sofá, a adição de uma escrivaninha, uma atualizada na fiação, uma pintura, e por aí vai. Quem tem investimentos no setor de materiais de construção e que tais, não está descontente.

No fim das contas, Galloway aponta para várias oportunidades potenciais trazidas pela crise da COVID-19, e vale muito a pena entender essa mensagem, pois no fundo ela reforça a velha máxima de que “enquanto alguns choram, outros vendem lenços.“

RUY FLÁVIO DE OLIVEIRA
Sócio da 3GEN, Ruy é formado em Engenharia da Computação pela UNICAMP, possui pós-graduação em Marketing pela ESPM e é especialista em gerenciamento de produtos pela São Paulo Business School. Ruy tem uma longa experiência nas áreas de tecnologia, marketing e gerenciamento. Consultor desde 2009 e instrutor desde o início de sua carreira, ingressou na área de gestão educacional em 2014, estabelecendo parcerias estratégicas entre a indústria e a universidade, em benefício de estudantes que já saem para o mercado de trabalho com experiências que são de alto valor para empresas que estão contratando.